Na última semana, o mundo da arte se despediu de Yayoi Kusama, aos 97 anos. Mais do que uma artista, Kusama construiu ao longo de sete décadas um universo próprio, e é sobre esse universo que vale a pena falar hoje. Ela criou não só um método mas um universo que todos gostavam de compartilhar.
Nascida em 1929 em Matsumoto, no Japão, Kusama começou a pintar ainda criança como forma de lidar com alucinações visuais e auditivas que a acompanhavam desde cedo. Em vez de esconder essa experiência, ela a transformou em linguagem: os pontos que via se tornaram as bolinhas que, décadas depois, cobririam abóboras, paredes, esculturas e o próprio corpo da artista. Para Yayoi Kusama, repetir o padrão era uma forma de dissolver o eu no todo, o que ela chamava de "auto-obliteração".
Foi em Nova York, no fim dos anos 1950, que ela se aproximou da vanguarda artística, dividindo espaço (e às vezes influenciando diretamente) nomes do pop art e do minimalismo, numa época em que ser mulher e japonesa nesse meio era, por si só, um ato de resistência.
Mas é bem provável que você já tenha se emocionado com o trabalho dela sem nem saber: as famosas Infinity Mirror Rooms (com certeza já viram em algum instagram, suas exposições já foram exibidas em várias cidades do mundo), salas espelhadas com luzes e bolinhas que parecem se estender ao infinito, se tornaram um dos fenômenos mais compartilhados da arte contemporânea, unindo profundidade conceitual e um convite genuíno ao encantamento.
Desde 1977, Kusama vivia por escolha própria em um hospital psiquiátrico em Tóquio, de onde seguia indo diariamente para seu ateliê, ali pertinho, para trabalhar. Essa rotina resume bem quem ela foi: alguém que fez da arte não um escape da própria mente, mas uma forma de habitá-la e compartilhá-la com o mundo.
O legado que ela deixa vai muito além das galerias. Está nas parcerias com marcas como a Louis Vuitton, harrods e entre outras. Nas filas que se formavam ao redor do planeta pra entrar em suas instalações, e principalmente na ideia de que vulnerabilidade e criatividade podem, e talvez devam, caminhar juntas.
Obrigada por nos mostrar o infinito, Kusama.

